Seu Inferno Particular: fui pesquisar um stalker e encontrei a revisão de férias
Contém ironia. Muita.
Eu nem sei muito bem o que dizer sobre Seu Inferno Particular, da Jessica Oliveira.
Fui ler o livro por um motivo extremamente específico: queria pesquisar a parte do stalker, porque estou escrevendo um livro que envolve justamente esse assunto e, como uma pessoa responsável pela própria pesquisa, achei que seria interessante ver como outra autora tinha trabalhado o tema.
Bom.
Pesquisei.
E, no processo, ganhei um doido e outra mais doida que ele.
Então acho que, de certa forma, meu objetivo foi alcançado.
Minha resenha no Skoob foi basicamente:
“saudável (contém ironia)
nem sei o que dizer... queria saber mais sobre a parte do stalker (pq eu fui pra ler pra pesquisar o tópico pq eu to escrevendo um livro de stalker) e no final ganhei um doido e outra mais doida que ele.
mas o amor sempre vence, ne? (ainda contém ironia)”
Dei 3 estrelas.
E não é que eu tenha achado o livro completamente ilegível. O problema é que, considerando o motivo pelo qual fui lê-lo, eu esperava encontrar um pouco mais daquilo que me interessava — e acabei encontrando uma dinâmica que foi muito mais “vamos todos ignorar algumas decisões questionáveis e seguir em frente porque o amor vence” do que qualquer estudo particularmente interessante sobre stalking.
Mas tudo bem.
O amor sempre vence.
(Contém ironia.)
Agora vamos falar de uma coisa que realmente não entra na minha cabeça
Uma das coisas que mais me deixa intrigada no mundo dos livros é como livros de autoras já famosas conseguem viralizar, acumular milhares de leitores e avaliações e, ainda assim, passar por problemas grotescos de ortografia, revisão e continuidade.
E Seu Inferno Particular foi um desses casos para mim.
No Skoob, o livro aparece com 1.284 avaliações.
Mil duzentas e oitenta e quatro.
Isso significa que, no mínimo, existe uma quantidade considerável de gente que efetivamente chegou àquelas 316 páginas.
E aí eu fico pensando: como é que determinadas coisas passam?
Porque não estou falando de uma vírgula que ficou no lugar errado.
Estou falando de problemas que me fizeram parar e pensar: gente, ninguém revisou isso?
Um dos meus favoritos foi a saga da madrasta da Lovely.
Em determinado momento, você descobre que o nome dela é Ivy.
Ou Evy.
Depende de onde você está na narrativa.
E isso não acontece uma única vez, como um pequeno erro de digitação que escapou na revisão. A dúvida existencial sobre o nome da mulher acompanha a história.
Ivy.
Evy.
Ivy?
Evy?
Talvez a verdadeira personagem complexa do livro fosse justamente a madrasta, vivendo sua dupla identidade.
E aí entra a matemática básica da coisa.
Se o livro tem 316 páginas e existem 1.284 avaliações no Skoob, temos pelo menos 1.284 pessoas que chegaram ao livro — embora, obviamente, avaliações não sejam uma métrica perfeita de número de leitores, porque nem todo mundo que lê avalia e uma pessoa pode avaliar sem necessariamente terminar.
Mas vamos brincar de matemática mesmo assim.
316 páginas × 1.284 avaliações = 405.744 páginas potencialmente lidas.
E se a autora recebe, por exemplo, algo em torno de R$ 0,009 por página lida no Kindle Unlimited, isso daria aproximadamente: R$ 3.651,70.
Só nessa conta hipotética.
E é justamente aí que eu entro naquele território nebuloso de: como vocês conseguem publicar livros assim e continuar sendo pessoas famosas?
Porque eu, sinceramente, tenho uma dificuldade enorme de aceitar que um autor independente precise revisar, reler, pagar revisão quando pode, caçar erro por erro, conferir nome de personagem, linha do tempo, continuidade, tudo...
Enquanto livros que já têm público, visibilidade e milhares de leitores conseguem chegar ao mercado com coisas que fariam qualquer leitora beta mandar um “amiga, volta aqui rapidinho”.
Não estou dizendo que um livro precisa ser perfeito.
Erro acontece.
Eu mesma escrevo e sei muito bem que, depois de passar horas olhando para uma história, chega uma hora em que você simplesmente não enxerga mais as próprias palavras.
Mas existe uma diferença entre um errinho perdido no meio de 300 páginas e problemas recorrentes que fazem o leitor questionar se está lendo a mesma história que o autor escreveu.
E, principalmente, existe uma diferença entre ser uma autora começando agora, sem estrutura, sem dinheiro e sem equipe, e ser uma autora que já tem público suficiente para fazer um livro explodir.
Nesse segundo caso, eu esperaria um pouquinho mais de cuidado.
Talvez seja só eu.
Talvez eu esteja exigente.
Talvez eu tenha passado tempo demais procurando o stalker e tempo de menos aceitando que o verdadeiro mistério da história era descobrir qual era o nome da madrasta.
Enfim.
Fui pesquisar stalker.
Encontrei caos.
Saí com algumas reflexões, uma personagem com dois nomes e a confirmação de que o amor aparentemente vence tudo — inclusive a revisão.
A gente segue na luta, né?
(Continua contendo ironia.)
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