Por que eu escrevo romance contemporâneo

 


Eu poderia dizer que escrevo romance contemporâneo porque gosto de histórias de amor.

É verdade – mas não é a resposta inteira.

Porque, se fosse só pelo romance, eu poderia escrever qualquer coisa. Um casal em outra época. Uma história fantástica. Um amor impossível em um mundo completamente inventado.

Mas eu sempre acabo voltando para o mesmo lugar.

Duas pessoas, uma vida que poderia existir, um problema que talvez pudesse acontecer comigo, com você ou com alguém que a gente conhece e, no meio disso tudo, duas pessoas tentando descobrir o que fazer com aquilo que sentem.

É por isso que eu escrevo romance contemporâneo.


Eu gosto de histórias que poderiam acontecer de verdade

Talvez essa seja a parte que mais me atrai.

Eu gosto de poder imaginar os personagens existindo em algum lugar depois que o livro termina.

Não em um reino distante.

Não em uma realidade completamente diferente.

Mas em uma cidade qualquer, entrando em uma cafeteria, pegando o metrô, chegando atrasados ao trabalho, discutindo por mensagem, encontrando alguém que não esperavam encontrar.

Gosto da ideia de que aquela história poderia estar acontecendo em algum lugar enquanto eu estou aqui, escrevendo sobre ela.

O romance contemporâneo permite isso.

Ele pega situações comuns e transforma essas situações em histórias.

Uma conversa que deveria ser simples.

Um reencontro.

Um colega de trabalho.

Um amigo que começa a parecer diferente.

Uma pessoa que você jurou que nunca mais veria.

Um relacionamento que começa pelo motivo errado.

E, de repente, existe uma história ali.


Eu gosto do que acontece entre as grandes cenas

Talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade de acreditar que romance precisa ser feito apenas de grandes acontecimentos.

Eu gosto dos detalhes.

Do café deixado na mesa.

Da mensagem enviada de madrugada.

De alguém lembrar como o outro gosta de alguma coisa.

Do silêncio depois de uma discussão.

Da mão que quase encosta.

Da conversa que dura mais do que deveria.

Do personagem que percebe alguma coisa antes de admitir para si mesmo.

Essas pequenas coisas me interessam muito.

Porque é nelas que o relacionamento começa a parecer real.

Um casal não se apaixona apenas durante o grande beijo cinematográfico.

Eles se apaixonam nas pequenas coisas.

Nas conversas.

Nas rotinas.

Nas piadas que só os dois entendem.

Nos momentos em que ninguém está olhando.

E eu gosto de escrever justamente isso.


Porque meus personagens não precisam salvar o mundo

Eles precisam sobreviver à própria vida.

E, sinceramente, às vezes isso já é bastante.

Meus personagens podem ter empregos, contas, inseguranças, famílias complicadas, sonhos, medos e péssimas decisões.

Eles podem estar tentando descobrir o que querem da vida enquanto tentam descobrir o que querem daquele relacionamento.

Podem ser perfeitamente funcionais em uma área e completamente desastrosos em outra.

Podem saber administrar uma empresa e não saber conversar sobre sentimentos.

Podem ter uma carreira incrível e uma vida amorosa caótica.

Podem parecer extremamente seguros por fora e estar completamente perdidos por dentro.

Eu gosto disso.

Porque romance contemporâneo me permite escrever personagens que são pessoas antes de serem interesses amorosos.

Eles têm uma vida além do casal.

E essa vida também interfere na história.

Às vezes, é justamente ela que torna o amor mais complicado.


Eu gosto de colocar o amor no meio da bagunça

Porque ninguém se apaixona quando tudo está perfeitamente organizado.

A vida não espera a gente resolver todos os nossos problemas para colocar alguém no nosso caminho.

Às vezes você conhece alguém quando está ocupado demais.

Quando não quer se envolver.

Quando acabou de sair de um relacionamento.

Quando decidiu que nunca mais vai cometer o mesmo erro.

Quando está focado na carreira.

Quando acha que já sabe exatamente o que quer.

E então aparece uma pessoa.

E estraga tudo.

No melhor sentido possível.

É uma das coisas que mais gosto no romance: o amor não precisa ser a única coisa acontecendo.

Ele pode acontecer apesar de tudo o que está acontecendo.

Ou por causa disso.

E eu gosto de descobrir como meus personagens vão lidar com essa interferência.


Porque eu gosto de tensão

Muita.

Provavelmente mais do que deveria.

Eu gosto daquele momento em que os personagens ainda não admitem o que está acontecendo.

Quando eles dizem que são amigos.

Quando dizem que é só trabalho.

Quando juram que não sentem nada.

Quando existe uma regra muito específica que ninguém deveria quebrar.

E, obviamente, alguém quebra.

Porque se existe uma coisa que aprendi escrevendo romance é que regras existem principalmente para serem testadas pela trama.

Eu gosto do olhar que dura um segundo a mais.

Da proximidade que não deveria incomodar, mas incomoda.

Da conversa que parece normal para qualquer pessoa e significa outra coisa para eles.

Gosto de escrever aquele espaço entre “não está acontecendo nada” e “meu Deus, está acontecendo alguma coisa”.

Talvez porque esse seja um dos lugares mais divertidos de escrever.


E porque eu gosto de finais felizes

Isso também importa.

Eu escrevo romance porque quero chegar ao final e acreditar que aquelas duas pessoas conseguiram.

Não porque a vida seja sempre assim.

Mas justamente porque ela nem sempre é.

Escrever romance me dá a oportunidade de construir um lugar em que, depois de toda a confusão, das escolhas erradas, dos desencontros e dos medos, duas pessoas conseguem escolher uma à outra.

O felizes para sempre não precisa significar que tudo será perfeito.

Pode significar simplesmente:

agora eles vão enfrentar o resto juntos.

E eu gosto disso.

Gosto de saber que, depois de passar tanto tempo criando problemas para os meus personagens, finalmente posso dar alguma coisa boa para eles.

Mesmo que eu faça eles sofrerem um pouquinho antes.

Talvez mais do que um pouquinho.


No fim, acho que escrevo o tipo de romance que eu gosto de ler

Talvez essa seja a resposta mais simples.

Eu escrevo histórias que me fariam parar para ler.

Quero personagens pelos quais eu torça.

Quero química.

Quero tensão.

Quero diálogos que me façam sorrir.

Quero aquele momento em que alguma coisa muda entre os personagens e eles ainda não sabem exatamente o que fazer com isso.

Quero romance.

Quero problemas que façam sentido para aquelas pessoas.

Quero cenas pequenas que tenham significado.

Quero aquela sensação de fechar o livro e pensar: eu gostei muito desses dois.

E talvez seja por isso que o romance contemporâneo continue sendo o lugar para onde eu volto.

Porque ele me deixa contar histórias sobre pessoas comuns vivendo coisas extraordinárias.

Sobre duas pessoas que poderiam existir.

Sobre sentimentos que talvez sejam familiares.

Sobre encontros, desencontros, escolhas, recomeços e todas aquelas pequenas coisas que fazem duas pessoas se apaixonarem.

Eu não preciso de um mundo inventado para encontrar uma boa história.

Às vezes, basta colocar duas pessoas na mesma sala e perguntar: e se elas se apaixonassem?

O resto eu descubro escrevendo. ✍🏻


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