A vida de quem lê é muito mais do que ler livros


Eu gosto de livros.

Isso provavelmente ficou bastante óbvio por aqui.

Mas, pensando bem, gostar de ler nunca foi simplesmente gostar de sentar e abrir um livro. Porque, em algum momento, os livros começam a ocupar vários outros espaços da nossa vida.

Você começa querendo apenas ler.

De repente, tem uma lista de TBR, uma coleção de marcadores, um Kindle cheio de livros que você jurou que vai ler, uma pasta de capas bonitas no Pinterest e uma opinião muito específica sobre qual lugar da casa é melhor para ler.

E aí você percebe que ser leitora virou um estilo de vida.

Não necessariamente um estilo de vida muito organizado.

Mas ainda assim.

A TBR que deveria ser impossível


Vamos começar pela TBR.

A ideia original parece bastante razoável: uma lista de livros que você quer ler.

O problema é que ninguém explica que a TBR não é uma fila.

É um organismo vivo.

Você lê um livro e coloca três na lista.

Entra em uma livraria “só para olhar” e sai com mais dois.

Uma amiga recomenda um.

Você vê um vídeo no TikTok.

Depois outro.

Alguém fala de um romance específico no Instagram e, cinco minutos depois, você está procurando onde comprar.

E pronto.

A lista cresceu novamente.

Às vezes eu olho para a minha TBR e penso que seria necessário abandonar temporariamente todas as outras atividades da vida para conseguir ler tudo aquilo.

E mesmo assim provavelmente apareceria um livro novo no meio do caminho.

O Kindle virou uma pequena biblioteca particular


Eu também acho curioso como um aparelho que cabe na bolsa consegue carregar uma quantidade de livros completamente irresponsável.

A lógica seria:

“Vou levar vários livros porque é mais prático.”

E, em algum momento, você percebe que tem livros suficientes ali para passar anos sem precisar baixar mais nenhum.

Mas baixa.

Claro que baixa.

Porque o problema nunca foi falta de livros.

O problema é que sempre existe mais um que parece exatamente o livro que você quer ler naquele momento.

E essa justificativa funciona todas as vezes.

Ler também envolve escolher onde ler


Existe o livro.

Existe o Kindle.

E existe o lugar.

Porque aparentemente não basta estar com vontade de ler. Precisamos criar o cenário.

Uma cama confortável.

Um sofá.

Uma manta.

Um café.

Uma música específica.

Uma iluminação minimamente decente.

Talvez uma vela.

Talvez uma chuva do lado de fora.

Talvez um cachorro dormindo por perto.

E, quando tudo está perfeito, você finalmente abre o livro.

Lê três páginas.

Pega o celular.

Cinco minutos depois está pesquisando outra coisa.

A vida de leitora tem dessas.

Os pequenos rituais


Acho que essa é uma das partes que mais gosto.

Os pequenos hábitos que acabam surgindo sem a gente perceber.

Ler antes de dormir.

Ler enquanto espera alguma coisa.

Levar o Kindle mesmo sabendo que provavelmente não vai conseguir abrir.

Escolher uma bebida para acompanhar determinado livro.

Separar um marcador porque ele combina com a história.

Criar uma playlist.

Salvar uma frase.

Fotografar uma página bonita.

Tudo isso parece completamente desnecessário para quem não lê.

Para quem lê, faz parte da experiência.

Porque, no fim das contas, o livro não ocupa só algumas horas do nosso dia.

Ele começa a ocupar pequenos pedaços dele.

Comprar livros também é uma experiência


E eu nem vou fingir que comprar livros é uma atividade racional.

Não é.

Você pode ter quinze livros esperando para serem lidos e ainda assim pensar:

“Mas esse aqui está na promoção.”

Como se a promoção fosse desaparecer para sempre.

Como se houvesse uma emergência nacional envolvendo aquele livro.

Como se alguém fosse bater na sua porta e perguntar por que você ainda não comprou.

E existe também a categoria especial:

comprar um livro porque a capa é bonita.

Não recomendo justificar.

Apenas aceite.

E tem o problema de querer falar sobre o livro


Porque ler também significa terminar uma história e imediatamente querer conversar sobre ela.

Você termina um romance e precisa contar para alguém.

Precisa falar do casal.

Precisa reclamar daquele personagem.

Precisa comentar o final.

Precisa dizer que determinada cena foi perfeita.

Precisa recomendar para uma pessoa que provavelmente nem pediu recomendação nenhuma.

E, quando não existe ninguém disponível para ouvir?

A gente escreve sobre isso na internet.

É exatamente o que estou fazendo aqui.

No fim, é tudo parte da leitura


Talvez seja por isso que eu goste tanto de pensar na leitura como alguma coisa maior do que simplesmente abrir um livro.

Ler é a história.

Mas também é o lugar onde você lê, o que você bebe enquanto lê, as músicas que ficam associadas àquela história, os marcadores que você guarda, a TBR impossível, o Kindle lotado, a livraria onde encontrou aquele livro, a conversa que teve depois e até aquela frase que ficou na sua cabeça por dias.

São todas essas pequenas coisas que acabam formando a vida ao redor dos livros.

E talvez essa seja uma das melhores partes de ser leitora.

Porque a história pode terminar na última página.

Mas a leitura, de algum jeito, continua.

E aí você fecha o livro, olha para a sua TBR e pensa:

“Tá. Qual é o próximo?” 🕯️📚

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