A trope “ele nunca esqueceu dela” é imbatível

 



Eu tenho algumas opiniões literárias que são completamente negociáveis – e essa não é uma delas.

A trope “ele nunca esqueceu dela” é imbatível.

Pode me dar enemies to lovers, friends to lovers, fake dating, casamento por conveniência, bilionário emocionalmente indisponível, vizinhos que se odeiam ou duas pessoas presas em um elevador por motivos completamente convenientes para a trama, eu vou ler.

Mas me diga que ele passou anos sem conseguir esquecer dela? Pronto, pode me entregar o livro.

Existe uma diferença enorme entre um personagem que reencontra alguém do passado e pensa “nossa, ela continua bonita” e aquele homem que passou anos carregando aquela mulher consigo.

Porque eu quero o segundo.

Eu quero o homem que tentou seguir em frente, que teve outros relacionamentos, que construiu uma vida. que fez tudo o que uma pessoa razoavelmente funcional faria depois de perder alguém.

E, ainda assim, nunca conseguiu realmente esquecê-la.

Isso aqui é o meu tipo de sofrimento.


Porque o amor já existia antes da história começar

Talvez seja isso que torne essa trope tão irresistível.

Quando o livro começa, eles não estão se apaixonando, eles já se apaixonaramO leitor só está chegando depois e isso muda completamente a dinâmica.

Existe um passado que a gente ainda não conhece direito. Existe uma história que aconteceu antes da primeira página. Existem sentimentos que já foram vividos, decisões que já foram tomadas e feridas que ainda não fecharam completamente.

Em romances de segunda chance, esse passado é justamente uma das coisas que dá peso ao reencontro. Eles não precisam descobrir se existe química, eles precisam descobrir se aquilo que existia antes ainda pode existir agora.

E quando ele nunca esqueceu dela?

Meu Deus, a situação fica ainda melhor porque enquanto ela talvez tenha passado anos tentando seguir em frente, ele estava lá: vivendo, trabalhando, envelhecendo, fazendo aniversário, pagando boleto e talvez até dizendo para todo mundo que estava ótimo.

Mas nunca esquecendo.

Eu adoro um homem que aparentemente seguiu a vida, mas emocionalmente está preso em uma mulher que ele perdeu anos atrás.

É saudável?

Não sei.

É excelente para a literatura?

Com certeza.


Eu quero o “eu reconheceria você em qualquer lugar”

Essa é outra coisa.

Ele não precisa que ela faça uma entrada cinematográfica.

Não precisa de vestido vermelho, de cabelo perfeito, não precisa estar iluminada por um raio de sol estrategicamente posicionado.

Ele reconhece ela.

Mesmo depois de anos, mesmo que ela tenha mudado, mesmo que esteja do outro lado de uma sala, mesmo que ele só veja o jeito como ela segura uma xícara ou escute a voz dela antes de conseguir enxergá-la.

Porque ele conhece aquela mulher.

Conhecia antes e nunca deixou de conhecer.

Esse tipo de reencontro tem uma tensão que é difícil de reproduzir em outros romances.

Porque, para ela, talvez seja: Meu Deus. Ele.

Para ele, é: Ela.

Só isso.

E eu já estou gritando internamente.


O melhor é quando ele tenta fingir que não sente nada

Aqui mora uma das minhas fraquezas literárias, porque obviamente ele não vai chegar no reencontro dizendo:

“Oi, passei os últimos oito anos pensando em você todos os dias.”

Não.

Ele vai ser um idiota: vai agir como se estivesse perfeitamente bem, vai responder alguma coisa seca, vai fingir que não percebeu que ela mudou o cabelo, vai dizer que foi bom vê-la e depois vai passar a noite inteira pensando nela.

É isso. É exatamente isso que eu quero.

Quero o contraste entre o que ele mostra e o que está acontecendo dentro da cabeça dele porque a graça não está apenas em ele nunca ter esquecido, está em descobrir o quanto ele nunca esqueceu.

A música que ele ainda não consegue ouvir, o lugar que ele evita, a data que continua marcada na memória, a comida que ele sabe que ela gosta, o apelido que ninguém mais usa, a fotografia que ele nunca conseguiu jogar fora, a lembrança completamente aleatória que aparece anos depois e prova que aquele relacionamento deixou marcas muito mais profundas do que ele gostaria de admitir.

Essas pequenas coisas são deliciosas.

Porque amor, em romance, não precisa estar sempre fazendo barulho.

Às vezes ele está escondido em detalhes ridiculamente pequenos.


E quando ela descobre?

Ah... essa é a melhor parte.

Porque uma coisa é o leitor saber, outra é ela descobrir.

Ela pode ter passado anos acreditando que foi a única que ficou presa naquela história, que ele seguiu em frente, que esqueceu, que ela foi apenas uma parte da juventude dele.

Até perceber que não.

Talvez ele ainda saiba exatamente como ela toma o café, talvez ainda lembre do aniversário dela, talvez tenha guardado alguma coisa que ela deu a ele, talvez tenha acompanhado a vida dela de longe, talvez, depois de todos aqueles anos, ele ainda consiga terminar uma frase que ela começou.

E aí vem aquele momento em que ela percebe: ele nunca me esqueceu.

Desculpa, mas isso é literatura de altíssimo nível para mim.


Porque existe alguma coisa muito romântica em ser inesquecível

Acho que, no fundo, é isso que essa trope entrega.

A fantasia de ter sido tão importante para alguém que o tempo não conseguiu apagar completamente aquilo que vocês viveram.

Não significa necessariamente que a pessoa ficou parada esperando e, na verdade, acho muito mais interessante quando não ficou.

Ele viveu, ela viveu, os dois mudaram.

Mas, mesmo assim, quando se encontram novamente, existe alguma coisa ali que o tempo não conseguiu destruir.

E talvez seja justamente por isso que a segunda chance funciona tão bem.

Não é voltar para o passado, é olhar para alguém que fez parte da sua história, perceber quem essa pessoa se tornou e descobrir que, apesar de tudo, ainda existe alguma coisa entre vocês.

Talvez diferente, talvez mais madura, talvez mais complicada – mas ainda ali.


E sim, eu quero que ele tenha esperado

Não literalmente parado em frente à janela durante dez anos segurando uma rosa (embora, dependendo do livro, eu aceite).

O que eu quero é a sensação de que, em algum lugar dentro dele, aquela história nunca terminou completamente.

Quero o homem que achou que tinha superado até vê-la novamente.

Quero o homem que construiu uma vida inteira e, ainda assim, percebe que existe uma parte dela que nunca conseguiu substituir.

Quero o olhar, o reconhecimento, a tensão, o “quanto tempo”, o “você está bem?”, o “estou”, a mentira.

Quero o passado aparecendo nos pequenos gestos, a descoberta de que ela também não esqueceu.

E quero, principalmente, aquele momento em que os dois finalmente entendem que talvez não estejam começando uma nova história, mas estejam terminando uma que nunca conseguiu acabar.

Porque é isso que me pega nessa trope.

Não é simplesmente “ele ainda ama ela”.

É a ideia de que algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam uma marca que não desaparece só porque o tempo passou.

E, sinceramente?

Se você me disser que ele nunca esqueceu dela, eu provavelmente nem preciso saber mais nada sobre o livro.

Me dê o homem. Me dê o reencontro. Me dê o sofrimento.

Eu resolvo o resto. 💭


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