A logística dos romances é completamente insustentável

Existe uma coisa que os romances nunca explicam.
Não é como duas pessoas que se odeiam passam a se beijar.
Não é como o homem mais fechado do mundo magicamente se torna capaz de falar sobre os próprios sentimentos depois de 300 páginas.
Não é nem mesmo como aquela mulher que jurou que nunca mais se apaixonaria acaba apaixonada justamente pelo homem que mais irritava ela.
Essas coisas eu aceito.
O que eu quero saber é: que horas essas pessoas trabalham?
Porque, sinceramente, a logística dos romances contemporâneos não fecha.
Todo mundo tem tempo livre
A protagonista trabalha 8 horas por dia, tem uma reunião importante às nove, outra às onze, precisa entregar um relatório até o fim do expediente e, ainda assim, às 14h37 ela está misteriosamente disponível para encontrar o interesse amoroso em um café.
Às 16h, eles estão discutindo no estacionamento.
Às 18h, ele aparece na casa dela.
Às 20h, eles saem para jantar.
Às 23h, estão conversando na varanda.
E às 2h da manhã acontece aquela conversa profunda sobre traumas de infância que muda completamente a relação dos dois.
Quando essa mulher dorme?
E mais importante: quem está fazendo o trabalho dela?
Porque eu tenho certeza de que não é ela.
O escritório é um lugar extremamente romântico
Outra coisa que me intriga é a quantidade de coisas que acontecem em escritórios.
Não estou falando de office romance. Estou falando do conceito de escritório como um ambiente onde aparentemente ninguém trabalha.
O casal passa horas:
— discutindo no corredor;
— se encarando na sala de reunião;
— entrando no elevador juntos;
— ficando presos no elevador;
— tomando café na cozinha;
— tendo conversas sexualmente carregadas perto da impressora;
— e, eventualmente, beijando-se em algum lugar onde existe uma placa dizendo SALA DE REUNIÃO — NÃO INTERROMPER.
Amiga.
Tem uma planilha para entregar.
O famoso “passa lá em casa”
Nos romances, “passa lá em casa” é uma expressão extremamente perigosa.
Porque, na vida real, você manda:
passa aqui em casa qualquer dia desses
e pode ficar esperando três semanas.
No romance:
Passa lá em casa.
Ele aparece vinte minutos depois.
E não é só isso.
Ele aparece com comida.
Ou vinho.
Ou flores.
Ou alguma coisa específica que ela comentou casualmente três capítulos atrás.
Às vezes ele ainda está usando a roupa perfeita, o cabelo está impecável e aparentemente tomou banho especificamente para fazer uma visita que, segundo o planejamento original, duraria quinze minutos.
Na minha vida, se alguém me fala “passa aqui”, eu preciso de pelo menos duas horas para decidir se tenho energia social suficiente.
Viagens espontâneas são extremamente fáceis
Outra coisa que os romances normalizaram foi a viagem de última hora.
“Precisamos ir para Paris.”
Certo.
Precisamos?
Porque eu precisaria verificar passaporte, passagem, hospedagem, dinheiro, trabalho, mala, carregador, remédio, provavelmente lavar roupa e entrar em uma crise existencial.
No romance, porém:
— Vamos para Paris.
— Agora?
— Agora.
Corta.
Aeroporto.
Ela está usando uma calça bonita, uma blusa branca impecável e carregando uma mala que aparentemente contém exatamente três peças de roupa.
Ele também está impecável.
Ninguém está preocupado com absolutamente nada.
Nem com preço de passagem.
Nem com horário.
Nem com trabalho.
Nem com o fato de que uma viagem internacional exige mais planejamento do que simplesmente decidir qual restaurante pedir no iFood.
E ninguém nunca está cansado
Essa talvez seja a parte mais impressionante.
As pessoas em romances dormem muito pouco e continuam funcionando perfeitamente.
Eles trabalham o dia inteiro.
Vão a festas.
Bebem.
Discutem.
Se beijam.
Fazem sexo.
Conversam sobre os sentimentos.
Dirigem por duas horas.
Voltam para casa.
E no dia seguinte estão de pé às seis da manhã.
Eu durmo oito horas e acordo cansada de ter dormido.
Essas pessoas claramente possuem algum tipo de bateria interna que ainda não foi disponibilizada para o público.
A casa também funciona de um jeito diferente
E precisamos falar sobre as casas.
Porque, em romances, a cozinha está sempre limpa.
Sempre.
Pode estar acontecendo uma crise emocional, uma separação, uma discussão familiar, uma emergência, uma mudança de cidade, uma gravidez inesperada...
Mas a bancada da cozinha está impecável.
Tem uma panela bonita no fogão.
Uma taça de vinho estrategicamente posicionada.
Luz amarela.
Talvez uma música tocando baixinho.
A vida dessas pessoas parece um catálogo da IKEA.
Na minha casa, dependendo do dia, a cozinha tem uma caneca que eu não lembro de ter deixado ali e uma embalagem de alguma coisa que deveria ter ido para o lixo ontem.
E ninguém tem vizinho
Isso é especialmente grave.
Porque o casal pode morar em apartamento e passar metade da noite discutindo, gritando, chorando, se beijando contra a parede e derrubando alguma coisa.
E nunca aparece um vizinho.
Nunca.
Nenhuma senhora do 402 bate na porta.
Nenhum homem do 501 manda mensagem no grupo do condomínio.
Nenhum síndico aparece ameaçando multa.
Nada.
É como se o prédio inteiro tivesse assinado um contrato de confidencialidade para proteger o romance deles.
No fim, talvez seja melhor assim
E, pensando bem, talvez essa seja justamente a graça.
Porque se os romances fossem logisticamente realistas, teríamos capítulos sobre:
“Ela queria encontrar o homem que amava, mas precisava trabalhar até as 18h.”
Ou:
“Eles estavam apaixonados, mas não conseguiram viajar porque a passagem estava R$ 4.800.”
Ou ainda:
“Eles finalmente tiveram uma conversa profunda, mas estavam tão cansados que decidiram continuar no domingo.”
E ninguém quer ler isso.
Eu quero a mulher largando tudo para ir até uma cabana no meio do nada.
Quero o homem aparecendo na porta dela às onze da noite.
Quero o escritório onde aparentemente ninguém trabalha.
Quero a viagem impulsiva.
Quero o jantar que vira uma conversa de quatro horas.
Quero a cozinha impecável.
Quero o vizinho que aparentemente morreu e ninguém percebeu.
Porque, no fim das contas, romance não é sobre reproduzir perfeitamente a logística da vida real.
É sobre criar uma realidade em que duas pessoas conseguem encontrar tempo para se apaixonar.
Mesmo que, para isso, seja necessário ignorar completamente o calendário, o expediente, o preço das passagens e as regras básicas de convivência em condomínio.
E sinceramente?
Eu aceito.
Só queria saber quem está fazendo o trabalho delas enquanto elas se apaixonam.
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