Talvez eu devesse parar de me apaixonar por homens fictícios questionáveis



Existe um momento específico em praticamente toda leitura em que eu percebo que estou começando a gostar de um personagem que, se existisse na vida real, provavelmente me faria atravessar a rua.

E o pior é que eu quase nunca percebo no começo.

Primeiro ele aparece: misterioso, arrogante e talvez até um pouco mal-educado. Tem algum trauma convenientemente escondido no passado e aquela expressão de quem está carregando o peso de pelo menos três gerações da família nas costas.

Eu penso: “nossa, que homem insuportável.”

Alguns capítulos depois: “ok, mas ele tem um lado sensível.”

Mais alguns: “ele só precisa de alguém que o compreenda.”

E, quando percebo, estou completamente investida emocionalmente em um homem fictício que provavelmente deveria estar fazendo terapia em vez de se envolver romanticamente com a protagonista.

É impressionante como a literatura consegue transformar sinais de alerta em características extremamente atraentes.

Na vida real, controle excessivo? Red flag.

No livro: Ele é tão protetor.

Ciúme? Problema.

No romance: Ele não suporta a ideia de outro homem olhando para ela.

Dificuldade de comunicação? Conversa necessária.

No livro: Ele nunca conseguiu dizer o que sentia, mas o olhar dele dizia tudo.

Um homem emocionalmente indisponível que responde tudo com “não se meta na minha vida”?

Na vida real, eu recomendaria distância.

No livro, aparentemente, isso significa que precisamos descobrir o que aconteceu com ele na infância.

E eu sei que existe uma diferença gigantesca entre fantasia e realidade. É justamente por isso que funciona.

Eu posso ler sobre um homem moralmente questionável, perigosamente obsessivo ou completamente incapaz de manter uma conversa emocional saudável sem necessariamente desejar encontrar uma versão dele no supermercado.

Aliás, por favor, não me encontre com uma versão dele no supermercado.

Eu gosto de ler sobre você – de longe entre duas capas e com a possibilidade muito conveniente de fechar o Kindle quando você começar a tomar decisões questionáveis.

Talvez seja isso que torne personagens fictícios tão divertidos.

Eles podem ser exagerados, podem ter defeitos enormes, podem cometer erros que, na vida real, seriam motivos suficientes para encerrar qualquer relacionamento. E ainda assim podem funcionar dentro da história.

Porque o romance não está prometendo: “Esse é o homem que você deveria escolher para a sua vida.”

Está dizendo: “Senta aqui e deixa eu te contar uma história.”

E algumas histórias vêm com um homem que claramente precisa de terapia; outras vêm com dois.

Algumas vêm com um mafioso; outras com um bilionário emocionalmente traumatizado.

E algumas, para meu completo desespero, vêm com um homem que é exatamente o meu tipo fictício.

O que me deixa diante de uma conclusão bastante desagradável:

Talvez eu não tenha um gosto ruim para homens.

Talvez eu só tenha um gosto literário muito específico.

E, sinceramente?

Não pretendo melhorar. 💀

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