Eu começo escrevendo a história e depois ela começa a escrever a si mesma

 



Toda história começa com alguma coisa.

Às vezes é uma cena.

Às vezes é uma frase.

Às vezes é um personagem que aparece na sua cabeça sem ser convidado e simplesmente se recusa a ir embora.

Você tem uma ideia, pensa que sabe exatamente para onde ela vai e começa a escrever.

E então acontece.

O personagem que deveria aparecer por três capítulos começa a roubar a história inteira.

A personagem que você imaginou de um jeito decide agir de outro.

Uma cena que deveria ser simples fica enorme.

Uma ideia que parecia ótima no planejamento deixa de fazer sentido quando chega ao papel.

E, de repente, você percebe que não está mais exatamente escrevendo a história que imaginou.

Está descobrindo qual história ela quer ser.

Essa talvez seja uma das partes mais estranhas de escrever.

Porque existe uma ilusão muito confortável de que o autor está no controle de tudo.

Você cria os personagens.

Você decide o que acontece.

Você escolhe quando eles se apaixonam, quando brigam, quando fazem alguma idiotice e quando finalmente percebem aquilo que o leitor já sabe há 150 páginas.

Na prática?

Nem sempre.

Às vezes você passa horas tentando fazer um personagem dizer determinada coisa e percebe que ele simplesmente não diria aquilo.

E você apaga.

Às vezes uma cena planejada com carinho não funciona.

Às vezes uma personagem secundária tem uma química absurda com alguém que nunca deveria ser seu par.

E aí você fica olhando para a tela pensando:

“Não. Nós não vamos fazer isso.”

E a história responde:

“Vamos, sim.”

É por isso que eu gosto tanto dos bastidores da escrita.

Porque o livro pronto parece uma coisa inteira, organizada, inevitável.

Como se aquela história só pudesse ter acontecido daquela maneira.

Mas antes de existir a versão final, existe um monte de decisões erradas, ideias abandonadas, cenas reescritas, personagens que mudaram completamente e momentos em que você não faz a menor ideia do que está fazendo.

Existe muito “e se?”.

Muito “talvez”.

Muito “isso aqui não vai funcionar”.

E, ocasionalmente, um:

“Meu Deus. Isso ficou muito melhor do que eu tinha planejado.”

Talvez escrever seja justamente aprender a reconhecer esses momentos.

Saber quando insistir naquilo que você imaginou.

E saber quando deixar a história tomar um caminho diferente.

Porque, no fim, eu ainda sou quem começa a história.

Mas, depois de algumas páginas, talvez ela já tenha começado a ter suas próprias ideias.

E aparentemente meus personagens não têm nenhum respeito pelo meu planejamento. ✍🏻

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